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Patricia Magalhães
Sustentabilidade além das Teorias

Patrícia Magalhães - sócia-diretora da FUNDAMENTO- consultoria pioneira em Sustentabilidade Humana , especializada em projeto e educação.
 
Cientista e pesquisadora pela USP em neurofisiologia e formada em Design de Interiores pela FAAP, Patrícia Magalhães participou dos estudos pioneiros da NFA - Neuroscience for Architecture nos EUA, fundou a D2B- Design to Business onde atuou como Designer de Interiores por 7 anos e atualmente, é membro do Designers Accord Group- EUA com foco em design sustentável estratégico. Traduzir o paradigma da sustentabilidade e teoria dos sistemas em estratégias e práticas viáveis para o setor de Arquitetura e Design de Interiores, sem perder o foco no Ser Humano, será o desafio de Patrícia no CONAD 2008.

Confesso que sinto uma profunda paixão e amor pela trajetória que venho percorrendo durante minha vida, pelo que acredito e faço. Pensar, refletir, quebrar paradigmas, inovar e transformar a realidade são a fonte de energia que move meus pensamentos, palavras e ações. É com esta motivação que venho pesquisando, trabalhando e trocando idéias com pessoas em todo o mundo, um processo de aprendizado contínuo, em constante evolução e expansão.

Do meu contato com o público, o mais significativo é observar como as pessoas possuem um conhecimento instintivo do que é ser sustentável, mesmo que não tenham clareza do que isso significa. Todos compreendem a necessidade de equilíbrio em suas vidas pessoais, na alimentação, nos relacionamentos, enfim, em todas as direções. A diferença está no nível de consciência e na amplitude do olhar.
Por isso Sustentabilidade é um Princípio e não um mero valor. Vamos entender isso...

O Olhar Sustentável é vasto e profundo.

Ainda hoje, o conceito `Sustentabilidade` por vezes surge exclusivamente associado a meio-ambiente, planeta e natureza, de forma muito simplista. Gosto de citar Rachel Carson, pois antes dela ecologia e ambientalismo eram sinônimos de fauna, flora, rios, mares e oceanos. Isso foi na década de 60 e a publicação de seu livro, Silent Spring, abriu os olhos da humanidade para a existência do Ser Humano como parte da natureza, do sistema e da teia da vida. Esta é a chave da compreensão do Princípio da Sustentabilidade - baseado na complexidade das leis universais, da Teoria dos Sistemas à Interdependência - mostrando que os Seres Vivos são Unidade e Partes de unidades, simultaneamente, e se organizam naturalmente em redes. Este princípio universal é o pilar do desenvolvimento sustentável, a escolha da Humanidade como Ser coletivo e as contribuições das escolhas individuais de cada pessoa, em todos os papéis que exercemos como seres sociais.

Dentro deste novo paradigma, o primeiro conceito de Sustentabilidade foi criado no começo da década de 1980 por Lester Brown, fundador do Instituto WorldWatch. Alguns anos depois, o famoso relatório "Brundtland" usou a mesma definição para apresentar a noção de "desenvolvimento sustentável" : " A humanidade tem a capacidade de alcançar o desenvolvimento sustentável - de atender às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem às suas próprias necessidades."
Estas definições são moral e socialmente muito importantes, mas nada tem a nos dizer sobre como fazer isso.

A partir dos anos 90, o panorama mundial - aquecimento global e crise energética - nos levou a aprender novas palavras - gases efeito estufa, emissão de CO2, seqüestro de carbono, projetos MDL e créditos de carbono, operações carbono zero, energia limpa e renovável, bio-combustíveis, era do pós-combustível fóssil...
Em virtude disso, todos os setores da economia e sociedade humana iniciaram um movimento de retomada de identidade e responsabilidades, e chamaram a isso novamente de Sustentabilidade.

Esse panorama mundial é a grande questão ética de nossa era, e quando esquecemos somos lembrados.... o tremor de terra em São Paulo no dia 22 de abril desnudou o quão frágil são nossos antigos paradigmas. No final das contas, o desafio da mudança climática é a questão mais difícil já enfrentada pela humanidade. Qual o aumento de temperatura e as conseqüências globais que estamos preparados para assumir? Será que temos sabedoria, vontade coletiva e capacidade técnica para estipular as metas? Ainda assim precisamos fazê-las, pois é a única forma de convertermos o problema de um fenômeno social complexo para uma meta específica e viável, através de metodologias apropriadas, e em todos os setores - engenharia, economia, ciência, arquitetura, educação, energia, produção industrial, consumo...
Isso é estratégia.

O Setor de Arquitetura e Design de Interiores e a questão da estratégia...

O setor de Arquitetura e Design de interiores está intimamente ligado ao setor de Construção Civil.
A pergunta sempre é: Quem somos, qual é o volume de dinheiro que movimentamos, qual o impacto negativo que causamos e como podemos continuar a crescer positivamente?
Instituições mundiais apontaram o impacto das edificações no meio-ambiente - 40% do volume total da emissão dos gases efeito estufa, 70% do consumo de energia elétrica, 65% da geração de resíduos, 21% do consumo de água e 50% da depleção dos recursos naturais. E também nos lembraram que a população está crescendo e a taxa de urbanização em 70-80% tem aumentado a demanda por água, energia e materiais de construção.
O crescimento vegetativo das cidades estimula os negócios do setor imobiliário, mas impacta e esgota a infra-estrutura municipal e o meio-ambiente. Como atingir o equilíbrio e responder àquela pergunta?

A resposta é um processo, que vai da compreensão do paradigma da sustentabilidade às ações estratégicas. Sem dúvida essa é uma nova linguagem e requer visão sistêmica sobre dependência energética, viabilidade econômica, saúde humana e políticas públicas, pois está fundamentada na teia da vida. Educação, normas, regras, certificações, selos e políticas estão entre algumas ações estratégicas para atingir as metas para o Setor. O importante é que são sempre pró-ativas, mesmo que algumas vezes sejam de caráter restritivo.
Países europeus foram os pioneiros. Isto começou na década de 70 com a crise do petróleo e teve seqüência com crise ambiental de 80 e 90. Na seqüência vieram os EUA, com ações efetivas estaduais e do órgão independente USGBC - United States Green Building Council, comprovando que os Green Buildings (GB) minimizam os impactos através de cortes drásticos - 40% nas emissões dos gases, 30% no consumo de energia, 50-90% na geração de resíduos e 50% no consumo de água.

No Brasil, diferente de como aconteceu no mundo, as regulamentações federais, estaduais e municipais de redução de consumo de energia estão sendo introduzidos ao mesmo tempo em que a certificação energético-ambiental. O Procel criou a "Etiquetagem Voluntária de Edifícios" com foco na eficiência energética. Os selos de entidades internacionais como o LEED, já no Brasil, consideram o energético-ambiental, indo muito além do Procel. Ambos são de adesão voluntária e não há política pública restritiva ou punitiva a esse respeito. Por enquanto.

Olhar novo, palavras novas, ações novas...

Para os profissionais, as palavras são novas - edificações de alta eficiência energética, construção sustentável, selo verde, ISO 14025, Análise de Ciclo de Vida, Green Buildings (GB), certificações, selo LEED, etiquetagem voluntária de edifícios - mas atualmente são parte obrigatória do vocabulário de nossa profissão.
Eu costumo dizer que as pessoas migram para a visão sustentável por três motivos - porque acreditam e já praticam, porque ainda são céticas e adorariam ser convencidas, ou porque precisam sobreviver no mercado em constante mudança.

Muitas pessoas já tomam decisões baseadas não só em si próprias, mas na comunidade e no meio-ambiente. Este número começa a crescer. Os designers, assim como arquitetos e engenheiros, precisam se preparar para guiar estas pessoas, assim como para educar as outras. A responsabilidade do profissional é maior do escolher tintas sem VOC`s (compostos orgânicos voláteis) ou especificar produtos `verdes`. Devemos ter habilidade de pensar tanto local como globalmente, ser capazes de avaliar o impacto de energia incorporada nos projetos, o ciclo-de-vida do empreendimento e o custo x benefício de cada escolha, além de evitar o `greenwashing`. E, o mais importante, estarmos preparados e motivados para formar opinião e transformar o mercado.

Se você já se engajou em sustentabilidade, você sabe em que você acredita e seus clientes também. O interesse em sustentabilidade tende a ser auto-seletivo. Os clientes que pensam parecido vão procurá-lo!!!
Se você está apenas aprendendo, ou não está completamente convencido de que é o caminho a seguir, então abra sua mente para as possibilidades e veja o que acontece.
Se você não acredita de jeito nenhum, então penso que é hora de você pensar na sua sobrevivência. Não acredite em mim porque estou falando, mas experimente!!!

Observe o Princípio da Sustentabilidade e o quanto ele se aplica à sua vida pessoal e particular. Então transfira para seu trabalho e para todos os papéis que você exerce na Vida.

Fonte: ABD

 
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