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Esther Stiller
O mito da iluminação brasileira em Campo Grande

 

Esther Stiller em Campo Grande nos dias 2 e 3 de Outubro. O mito da iluminação brasileira

"A luz natural é muito importante, mas a iluminação artificial é mágica, misteriosa”

O nome da arquiteta paulista Esther Stiller é, sem dúvida, uma das mais fortes referências em iluminação arquitetural no país. Pioneira, ela vem se dedicando a essa área desde 1967, quando, como estudante na Universidade Mackenzie, estagiava no escritório do professor de desenho industrial Lívio Edmondo Levi.

Além de professor e designer, Lívio Levi foi o primeiro a atuar profissionalmente no então novo espaço de atividade que se abria para os arquitetos. 

Com a morte prematura de Levi, em 1973, Esther passou a dirigir o escritório e a dedicar-se ao uso da luz artificial como elemento de definição e qualificação dos interiores das edificações, da paisagem e dos espaços urbanos.

Qual era o panorama da iluminação de arquitetura no final dos anos 60, quando você começou a atuar na área?

Vi a expressão lighting design, pela primeira vez, em um livro sobre iluminação, trazido da Itália pela mãe de Lívio Levi. A profissão que hoje se chama lighting designer é relativamente recente. 

Não gosto da expressão, porque já está muito vulgarizada. Em meu cartão de visitas, uso lighting architect, porque sou uma arquiteta especializada em iluminação. O lighting designer é, muitas vezes, um profissional que migrou da área cênica, foi utilizado pela arquitetura, mas, como não tem formação de grau superior específica, passa a ser chamado assim. E, como ocorre com toda profissão que não exige título ... qualquer um pode ser.

Quando você começou, que nome se dava à profissão?

Não sabíamos que nome dar a nossos projetos. Apesar do consenso, por parte dos arquitetos, 

de que a iluminação era absolutamente necessária, o que existia era a engenharia luminotécnica, que é o lado objetivo da matéria chamada iluminação. Luz é a matéria-prima,  e iluminação a técnica de aplicação da matéria-prima. A parte objetiva da técnica de iluminação foi desenvolvida a partir da lâmpada elétrica, cuja produção, muito sofisticada, passou a exigir um tecnólogo específico, tanto para a compreensão da lâmpada quanto para a sua aplicação. Esse é o lado objetivo, qualquer engenheiro que se disponha a estudar aprende.  O engenheiro de iluminação está para nossa matéria assim como o engenheiro civil está para a arquitetura. Lívio Levi sempre se perguntava que nome deveríamos colocar no projeto e terminamos por adotar o termo iluminação arquitetônica.

Como se deu o início de suas atividades?

Em 1967, no terceiro ano da faculdade, tinha aula de desenho industrial e estagiava no escritório do professor Lívio Levi, que, além de arquiteto, era ótimo designer. Ele tinha viajado para um congresso da Associação Internacional de Desenho Industrial e trazido um catálogo da Philips holandesa, com o lançamento daquele ano - uma lâmpada comprida, de halogênio, que substituiria a lâmpada incandescente comum com uma diferença: era mais branca e mais brilhante. Na mesma época, o Ministério das Relações Exteriores achou que o Palácio dos Arcos e suas obras de arte não estavam bem iluminados e ficou sabendo, por Athos Bulcão, que Levi fazia design de luminárias. Entrou em contato com ele e perguntou se aceitava fazer algumas luminárias para o salão de credenciais. Com a nova lâmpada na mão, Lívio teve a idéia de fazer luminárias com luz indireta. Desenhou, então, um sistema com pedestal, bandeja na parede e projetor para iluminar os objetos. Como estagiária de seu escritório, fui encarregada de desenhar - na verdade, passar a limpo - seus projetos, e assim comecei minha vida profissional.

Depois desses trabalhos em Brasília, surgiram outros?

Sim, mas o embaixador pediu ainda para Lívio projetar a iluminação das obras de arte e da fachada do Palácio dos Arcos, e fomos fazendo tudo experimentalmente. Na época não se tinha compromisso com acertos e erros, era só colocar o refletor e pronto. Por sorte, ficou tudo ótimo, porque Lívio tinha uma percepção única. Depois de atuar em cerca de 15 projetos de iluminação, ele faleceu, vítima de ataque do coração. Dias depois, a família e os colegas se reuniram para discutir o quefazer com os projetos em andamento e me perguntaram se eu topava levar o negócio adiante. Eu disse que me propunha a ajudar, mas eles queriam que eu desse continuidade aos projetos. Eu tinha só 27 anos e um filho de um mês, achava que não poderia assumir uma tarefa desse porte. No entanto, pressionada, me prontifiquei a dar seqüência aos trabalhos. Na Philips, encontrei ajuda no professor Libbesmit, um engenheiro luminotécnico holandês de alta competência que tinha sido professor de Lívio. 

Em minha opinião, Lívio Levi e Libbesmit, como engenheiro em luminotécnica, criaram os alicerces para a iluminação arquitetônica no Brasil.

Qual a razão da rápida evolução dessa especialidade nos últimos anos, em todo o mundo?

A arquitetura moderna sempre foi muito singela, muito simples, não propiciava nenhum apelo às artes decorativas. Já o pós-modernismo trouxe muito dessa reconquista das artes gráficas, e a iluminação passou a ser muitas vezes a cor da fachada, do ambiente. O decorativo passou a ter grande importância. E o uso da luz artificial evoluiu muito nos últimos 15 anos. Aquilo que era a conquista de alguns passou a ser necessidade para a maioria das obras, principalmente para o setor de lojas, que tem no apelo visual sua garantia de sucesso. Houve também grande evolução da tecnologia, da própria luminotécnica.

 

O que desencadeou a evolução do setor no Brasil?

A ampliação do mercado. A mudança é resultante da consciência das pessoas de que a iluminação é produtiva e lucrativa. E também a abertura do mercado, que propiciou a entrada no país de material de alta tecnologia. Há 15 anos, íamos para as feiras internacionais, víamos a evolução, mas era frustrante, porque sabíamos que não poderíamos fazer muita coisa aqui. 

O próprio interesse pela renovação visual, para hotéis ou para lojas - os edifícios que mais cedo despertaram para isso -, e a necessidade de racionalidade do uso de energia nos edifícios institucionais e comerciais levaram à ampliação do mercado, hoje enorme. O perigo é que, como o crescimento é grande e a informação pequena, corre-se o risco de que o mercado venha a ser ocupado por aventureiros que se denominam lighting designers.

Na profissão você enfrentou algum tipo de discriminação por ser mulher?

Não, em um país de machistas como o nosso, foi ótimo, nunca tive problema. No início, enfrentei certo desconforto com relação aos profissionais da engenharia elétrica, que se achavam os donos do pedaço. O fato é que, em certo momento, seja do desenvolvimento das lâmpadas ou da engenharia elétrica, tudo o que era referente à tecnologia ficou para a engenharia, e tudo que era da criatividade, da invenção, passou a ser do arquiteto. E, obviamente, a iluminação, baseada em uma tecnologia complexa, tem as duas partes. Claro que o profissional pode ser um grande designer e ter a seu lado alguém que entenda de tecnologia e faça todos os cálculos. Mas se ele próprio puder fazer isso enquanto está projetando será muito melhor, mais rápido e fácil.

 

O mercado tem correspondido a essas mudanças?

O mercado está descobrindo que um espaço bem iluminado é muito mais agradável, mais produtivo e mais lucrativo do que uma área sem iluminação correta. E posso dar o exemplo da rede O Boticário: depois da renovação de todas as suas lojas, que são mais de 2 300 em todo o Brasil, houve aumento médio de vendas, por loja, de 27%. Isso é muito, porque se trata de um segmento estável. Acho que, aos poucos, os empresários estão descobrindo isso. De modo geral, o mercado está altamente propício ao avanço da profissão. Atualmente, estamos procurando, por meio de nossa associação, definir as responsabilidades do autor do projeto, a que ele deve responder, de que maneira e quanto isso deve custar.

Quando a associação começará a funcionar ?

A idéia da associação é muito antiga, mas desde 1997 começamos a nos encontrar para tentar organizá-la. Somos 15 profissionais de vários pontos do país e já formalizamos nossos estatutos, o que nos tomou muito tempo. 

Mas ela só passou a existir oficialmente no ano passado, quando conseguimos finalmente o registro da Associação Brasileira dos Arquitetos de Iluminação, a Asbai.

Todos os associados são arquitetos?

A maioria é, mas temos dois engenheiros, um designer e um cenógrafo. Vamos agora tornar públicas as atividades da Asbai e programar encontros com a mídia especializada, com a Asbea e com o IAB para estreitar nossos relacionamentos. Pretendemos, em um seminário, discutir os interesses dos profissionais, dos patrocinadores e das empresas fabricantes da área de iluminação. Mostraremos as vantagens do projeto de iluminação e os compromissos do bom profissional da área, e, a partir daí, vamos não só divulgar a profissão, mas buscaremos estreitar nossos relacionamentos com outros setores de arquitetura, de engenharia etc. Preocupamo-nos também com a formação, pois vamos ser muito exigentes na adesão de novos membros. No futuro, exigiremos exame de certificação profissional, para que haja distinção entre o profissional bem formado e o aventureiro.

Que tipo de formação a associação exigirá?

Ser arquiteto é pré-requisito. Atualmente, para a formação, os jovens interessados podem estagiar em escritórios da área, onde tomarão conhecimento da prática da profissão. Mas vamos lutar por bons cursos de pós-graduação. Atualmente existe uma proliferação desses cursos, mas não temos conhecimento nem de seus conteúdos nem da formação de seus professores. Todas as faculdades de arquitetura têm suas cadeiras de iluminação, assim como as faculdades de engenharia elétrica. Mas são cursos de apenas um semestre, nenhum deles notável.

O mercado nacional de iluminação já dispõe de tudo o que se produz de melhor no mundo?

O mercado brasileiro tem condições de disponibilizar tudo o que lhe é solicitado. 

Na indústria de lâmpadas, o que é produzido em determinado país passa por uma estratégia de distribuição no mundo inteiro. Com a globalização e o mercado aberto, a facilidade de transportes e de comunicação, temos acesso a tudo, mas nem tudo está em nossas lojas. 

Esse tipo de indústria detém tecnologia sofisticadíssima e não é fácil para os fabricantes ter tudo em estoque aqui, menos ainda produzir. Só se produz aqui o que vende bem e sai barato. Fomos com um grupo de profissionais visitar a fábrica da lâmpada T5 da Philips, na Holanda, e fiquei espantada com as dimensões da indústria. É um prédio gigantesco, todo destinado a produzir apenas aquele tipo de lâmpada. A Philips não teria condições de fazer várias dessas fábricas em outros países. 

Quanto às lâmpadas, hoje se pode adquirir aqui o que há de melhor no mundo e o que dura mais. 

O que não há é a mesma variedade de tipo, de potência e de cor encontrada nos EUA e na Europa. Já os reatores eletrônicos sofreram evolução brutal, o que melhorou o desempenho de todo o sistema de iluminação. 

Em luminárias, temos acesso a tudo da melhor qualidade encontrada no mercado internacional. Refletores de altíssimo brilho - nosso mercado não tem mais o produto nacional, só o alemão e o norte-americano, a preços muito acessíveis -, temos fios de boa qualidade. E, quanto à pintura eletrostática, só não faz bem-feito quem não quer, pois existem financiamentos para equipamentos, estufas etc.

Como é a relação entre o profissional de desenho e cálculo e o fabricante de luminárias?

Esse é um ponto polêmico, porque o mercado consumidor, formado por empresas construtoras e de projeto, está acostumado a receber dos fabricantes projetos gratuitos e acha elevados os preços praticados pelos profissionais do setor. Esses projetos fornecidos gratuitamente pelos fabricantes surgiram na época em que não se tinha tanta consciência da necessidade de um trabalho bem-feito. Quando fui diretora de uma indústria de luminárias, dizia para o cliente que a fábrica fornecia não um projeto, mas uma sugestão de aplicação do produto. 

E chamar sugestão de projeto é fazer concorrência desleal com o profissional da área que vive disso. Discutiremos esses assuntos na Asbai.

Qual é o melhor momento para o arquiteto de iluminação entrar no projeto?

Na concepção. O projeto de iluminação faz parte da concepção do espaço. Geralmente nos convidam quando estão desenvolvendo o anteprojeto. Quando somos chamados mais tardiamente, damos apenas consultoria.

De que maneira você trabalha?

Sempre digo aos jovens profissionais que, quando iniciamos um trabalho, precisamos seguir uma série de passos para entender o que o cliente está pedindo e qual será a resposta. Digo que se está fazendo arquitetura de iluminação na hora em que pegamos toda a soma dos dados e começamos a ver como vai ficar cada ambiente depois de iluminado. Desenhamos o facho luminoso em cada um dos ambientes, com o pincel certo, verificando suas especificidades. Temos que ver, ainda, como a luz da natureza se comporta, como entra no espaço. Faço questão de conectar o facho luminoso técnico com o facho que coloquei no papel. 

 

Outra coisa que faço questão de salientar aos jovens é que eles podem aprender muito observando a luz da natureza. Para mim, ela sempre foi uma fonte de percepção total, e verifico as variações da luz nas diferentes estações, nos diversos tipos de dia, de horários. A pessoa vê brilho, sombra, dia nublado, dia ensolarado, outono, verão, manhã, meio-dia, tarde. Observa ainda o que é sombra, o que é profundidade nas imagens conforme a luz da natureza, e acaba fazendo isso nos ambientes.

Apesar da sensibilidade que você tem com a luz artificial, às vezes não sente inveja do arquiteto que usa a luz natural?

Certamente. Porque só entramos no projeto depois que o arquiteto concebeu a macroescala. De vez em quando, perguntamos se ele não poderia abrir uma janela aqui, uma clarabóia ali. Às vezes conseguimos, outras não. Mas, por outro lado, se observarmos de dia os vários monumentos ou as fachadas de alguns edifícios, vamos preferir vê-los à noite, porque a luz artificial traz variedade e riqueza de formas muito maiores, uma vez que os pontos de origem da fonte luminosa são diferentes. Com a luz direta do sol, perde-se muito da profundidade da obra. 

A luz natural é muito importante nos vazamentos das partes internas das residências e em outros edifícios, mas a artificial é mágica, misteriosa.

Fonte: Arcoweb

 

 
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